sábado, 16 de outubro de 2010

Capítulos da Josi - Eleições

Eleições


Fiz parte de uma geração cuja palavra de ordem era intensidade. Tudo tinha que ser extremo. Viver intensamente, amar intensamente, defender suas posições com unhas e dentes.

Tá certo que o meu sangue leonino também gosta disso, não dá pra por toda a culpa na cultura social, mas atravessei a adolescência num período em que radicalismo era bonito. Tanto é assim que a minha geração, pais e mães hoje, ainda passam isso aos filhos. As crianças nascem e a primeira foto é com a camiseta de um time, já no hospital; antes de balbuciarem mamãe, já cantam partes do hino do clube e quando crescem é pior, passam todos os almoços de domingo tendo que responder se é gremista ou colorado, xavante ou pelotas. E para acabar com a função, a criança que opta por não responder é duplamente massacrada, até que diga um dos times e mais, afirme que ODEIA o outro. Quando não passa pela tarefa de pisar em cima da camisa do adversário.

Nós mesmos já passamos por isso, já nos obrigamos a tomar um partido e não modificá-lo jamais, sob pena de ficarmos eternamente estigmatizados de “vira casaca”.

E quem vive sob essa pressão de ter que se posicionar corretamente sempre, para evitar as críticas de voltar atrás, acaba agindo pela maioria. Apenas ouvem e sem analisar outro lado, sem aplicar o que foi dito a sua vida e as necessidades daquele momento saem repetindo como papagaios.

Prova disso foi a expressiva votação que teve Marina Silva do Partido Verde. Isso não é uma crítica a candidata ou seu eleitorado. Quero apenas explicar que embalados pela onda verde mundial, desastres ecológicos, aquecimento global, destruição da natureza, Marina usou somente esse discurso para obter 20% da confiança dos brasileiros, mesmo sabendo que nosso país, sobre isso, está em ampla vantagem comparado a destruição ecológica de outros países.

O Brasil vive uma onda de violência que aumenta a cada dia, penitenciárias inúteis, sistema de segurança defasado, fiscalização precária. Além disso, estradas ruins ou pedagiadas, que não dão segurança e matam mais do que guerras; escolas decadentes; entre tantos outros problemas que todos convivem. Mas muita gente me dizia: vou votar na Marina porque precisamos salvar o meio ambiente. Qualquer justificativa me convenceria, desde que considerasse que para governar um país não basta repetir o discurso demagógico e ideal.

Não é a quem o voto foi dado que me incomoda, mas a forma que foi dado. Seja lá quem for o candidato, se mereceu o voto pela análise crítica entendo que foi um voto válido, mas fazer coro com o discurso bonito para evitar derrota do seu ponto de vista me soa trágico.

Nem vou entrar nos votos dados ao palhaço Tiririca, pois teria que enfrentar uma séria discussão sobre democracia em um país tão bizarro quanto seus eleitos.

Apenas sustento que a visão apolítica em todas as esferas, não só partidária, aliada a obrigação moral de se posicionar corretamente e defender intensamente, nos torna cada vez mais alienados e acomodados. Na dúvida, pra não ficar em cima do muro, minha opinião é a mesma tua e vou usar as tuas palavras para justificar a minha ideia. Tenho ainda a voz da imprensa, que pensa como eu, não eu como ela.

São José do Norte tem uma das disputas políticas mais acirradas que conheço. Por ser uma cidade pequena, a aproximação e familiaridade entre as pessoas faz com que gravem cada palavra que foi dita; e ser flexível pode levar a pena irreversível de desmoralização social. Duvidam? Todo o dia, antes de pegar a lancha para ir à faculdade, passava na frente da sala de um amigo, parava e tomava um mate com ele, depois seguia. Esse amigo era filho de um candidato do PMDB e eu filha do presidente do PP, quando começaram as campanhas, a sala virou comitê do pai dele e um dia, na minha passada para o mate, fui expulsa dali. O meu amigo, sob xingamentos saiu junto e fomos tomar o mate do outro lado da calçada.

Só essa? Não...meu vizinho (de outro partido) em época de campanha, para ir a minha casa, precisava do apoio de várias pessoas para cuidar a rua, até que não houvesse uma alma, correndo ele saia da casa dele e entrava na minha. Tudo isso só pra falar sobre o tempo, os horários da barca...

Hoje, distante do Norte e mais madura, revejo o meu radicalismo e as minhas (im)posições. Não tenho filhos (ainda) mas como mãe pretendo deixar bem claro que ninguém está obrigado a tomar decisões precisas, irrefutáveis e imediatas. Deixem que voltem atrás pra corrigir, tudo na vida tem conserto, só o que não tem é a morte, porque essa eu não sei como funciona.

Penso que ponderar é a forma mais intensa e difícil de viver. Há algum tempo adotei a palavra EQUILÍBRIO pra mim, mas é difícil, quem sabe se treinar desde pequeno prospere.

Conheço o verso e não sei o Autor, mesmo sem os devidos créditos não posse deixar de passar a mensagem: “As caliandras que existem no meu peito não nasceram para andar como caturras repetido no mais o que lhes ensinam!”

Josi Borges

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